Destaques

EUCARISTIA: SACRAMENTO DA PÁSCOA

Na História da Salvação, temos que falar da Páscoa antes de evocar Moisés, e até mesmo Abraão. Essa festa de origem cananéia remonta sem dúvida bem antes da saída do Egito. Ela é tão antiga como as primaveras, os rebanhos e os pastores. É o sacrifício de Abel. Em sua origem, a Páscoa é uma festa de família. Celebra-se de noite, na lua cheia do equinócio da primavera, no dia 14 do mês de Abib ou das espigas (chamado nisan após o exílio). Oferece-se a Deus um animal novo, nascido nesse ano, para atrair as bênçãos divinas sobre o rebanho. A vítima é um cordeiro ou cabrito, macho, sem defeito; não se lhe deve quebrar osso algum. Em sinal de preservação, o sangue do animal é colocado à entrada de cada moradia. A carne é comida com respeito em sinal de comunhão com Deus.

Contudo, é o Êxodo que vai dar a essa festa a sua definitiva significação: a Páscoa nômade se converterá na Páscoa judaica. Ela recordará a saída do Egito, a libertação, “com a força de seu braço”, a Aliança renovada no Sinai… Ela será a festa, sempre atual, da onipotência e do amor de Deus, para outrora, para hoje e para o futuro…

A libertação criadora que a Páscoa comemora e ao caráter laborioso, oneroso, da façanha divina, corresponde o título de “redentor”, já dado por Deus no Primeiro Testamento. O redentor é aquele que resgata um escravo, fazendo dele assim um homem livre. Contudo, a aplicação do termo ao Deus Salvador quase não terá desenvolvimentos enriquecedores antes do Novo Testamento.

 Essa refeição pascal compreende circunstâncias e elementos “típicos”, a reconhecer ou a reviver na Eucaristia.

– É uma importante partida, de noite. Cada família se apronta silenciosamente, febrilmente, cingidos os rins, sandálias nos pés, bordão na mão. (Ex 12,11). A nossa Eucaristia será ainda uma “passagem”, uma “páscoa”, um êxodo? Deveria sê-lo. Não somos aqui da terra! Não somos sedentários, instalados. Mas nômades. A comunhão é um alimento de viagem, um repasto de etapa, para chegar sem desfalecer ao ponto final da travessia… “Meu Deus, será para esta noite?”

– Escolheu-se um cordeiro sem defeito. Um por família. É imolado. Sem lhe quebrar osso algum. O sangue dele, nas portas, lhes valerá serem “pulados” quando “passar” o anjo exterminador. A morte entrará em toda casa que não estiver marcada com sangue do cordeiro.

– Comer-se-á da carne do cordeiro com pão que, em sua pressa, o povo não tiver tido tempo de fazer levedar, – e ervas amargas em contraste com as cebolas do Egito com as quais ele sonhará através do deserto.

– A Páscoa é um mistério no qual deve participar “toda a assembleia da comunidade de Israel”. E na qual somente podem participar os membros desse povo. Abster-se dela é excluir-se do povo de Deus.

 – O próprio israelita só pode participar em união com a totalidade do seu povo. A Páscoa não é um rito individual. O povo é salvo em conjunto, numa única e mesma “passagem” da idolatria e da escravidão para a liberdade do deserto e a Aliança de Deus: ele celebra e celebrará comunitariamente a sua salvação no rito eficaz do cordeiro pascal.

– O verdadeiro Cordeiro Pascal é Cristo crucificado. Paulo celebra-o como “nossa Páscoa imolada” (1Cor 5,7). Lembra-nos Pedro que fomos “resgatados pelo sangue precioso de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula” (1Pd 1,19). João Batista designa-o como o “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1,29). O IV Evangelho acentua que os judeus celebraram a Páscoa ao cair da noite de Sexta-feira santa; eles imolaram, portanto, o cordeiro de tarde, à hora exata da morte de Jesus. Por isso, no Apocalipse, o Salvador nos é apresentado cerca de trinta vezes sob os traços de um cordeiro imolado e sempre vivo de pé, e senhor da História (cc 5-7).

Sob a pressão do exterminador, o Egito solta a presa e Israel foge. Só Deus podia – só Deus pode – arrancar o seu povo à escravidão e à idolatria. O deserto é a “passagem” necessária para a Terra das promessas. Ora toda “passagem”, inaugurada com a Páscoa judaica pela qual se abre o ciclo do Êxodo, continua e vai se consumar pela Páscoa da aliança nova e eterna. É a Páscoa Eucarística, da qual a primeira apenas era figura. Dessa primeira Páscoa do Êxodo, a carne do cordeiro e o pão sem fermento serão substituídos, ao longo da marcha, pelo maná miraculoso, e “muito saboroso”. Ele somente deixará de cair após a celebração da primeira Páscoa na terra prometida. No entanto, era apenas uma imagem: “Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram.” E eis a realidade: “Este pão é o que desce do céu para que não pereça quem dele comer” (Jo 6,49s). A travessia do deserto é marcada, portanto, pelo acontecimento mais importante da história judaica: a aliança renovada.

Para selar, então, este acordo, em boa e devida forma, dois aspectos são importantes: (Ex 24)

– Mediante um sacrifício, por certo, pois um dos contratantes é a Fonte de vida e de tudo. Um sacrifício que é acompanhado do seguinte rito: o sangue das vítimas é derramado, ao mesmo tempo, sobre o altar que representa Deus, e sobre o povo, simbolizado por doze estrelas: daí em diante, um mesmo sangue, uma mesma vida circulam em ambas as partes contratantes e fazem os dois como que um único ser vivo…

– Uma refeição eucarística também está presente na Aliança do Sinai. Após a aspersão do sangue, Moisés, Aarão e os setenta anciãos de Israel subiram ao Sinai. “Eles contemplaram a Deus, comeram e beberam” (Ex 24,11). Este é o maior sinal de comunhão do homem com Deus.

AS QUATROS NOITES

No espírito judaico, a Páscoa não comemora só a noite da saída do Egito. A Tradição soma-lhe o “memorial” de três outras noites, de três outros “nascimentos”, resumindo, assim, toda a História da Salvação, desde a Criação até o fim do mundo. Cada uma delas, à sua maneira, é uma criação, um nascimento, uma libertação.

1) “No princípio Deus criou o céu e a terra”, inteiramente novos. Foi o nascimento do mundo, dos seres vivos, do homem e da mulher. A origem. Primeira etapa redentora, porquanto ela arrebatou o universo à noite, à morte do nada…cada missa é o seu “memorial”.

2) Memorial igualmente de Abraão, quando, a essa humanidade, Deus fala. E é a aurora da primeira Revelação, o nascimento (espiritual) do primeiro “amigo de Deus”, a criação de uma raça espiritual de crentes, a Humanidade salva que nasce de cima estéril e, mais ainda, da fé de Abraão; “re-criação” de Isaac, que de certo modo ressuscita sob o altar de seu sacrifício.

3) A terceira noite é o memorial da eleição, quando Deus apareceu aos egípcios no meio da noite: sua mão (esquerda) matava os primogênitos dos egípcios e sua mão direita protegia os primogênitos de Israel para que se cumprisse o que diz a Escritura: o meu filho, o meu primogênito é Israel. É a noite da libertação do Egito. É a noite da Páscoa para o nome do Senhor, noite reservada para a salvação de todas as gerações de Israel. Trata-se do anúncio na Páscoa judaica da Páscoa de Jesus, o Messias esperado. Os “últimos tempos”, criados na cruz, nascidos do lado aberto, anunciam e apressam o Dia pleno do Senhor, o Oitavo dia, a Parusia. São Paulo faz uma relação entre os “últimos dias” e o mistério pascal: “Todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice, anunciais a morte do Senhor até que Ele venha” (1Cor 11,26). Então finalmente estará a criação “acabada”, o nascimento pleno dos homens e do mundo enfim libertos (cf. Rm 8,18s).

Padre Adilson Luiz Umbelino Couto