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17/02/2020

Artigo Padre Isauro - Evangelho segundo Mateus


O evangelho de Mateus na tradição da Igreja foi o mais comentado durante muitos séculos por ser o mais completo. É o primeiro na ordem canônica, mas na ordem cronológica é Marcos. O nome Mateus significa “dom de Deus”, em grego “Theodoro”. É mencionado em todas as listas de apóstolos do NT (Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 15; At 1, 13). Sua festa é celebrada em 16 de novembro na Igreja grega e 21 de setembro na Igreja latina. É simbolizado por um anjo ou um homem, visto que o primeiro evangelho começa pela genealogia humana de Jesus.

 

     A obra de Mateus parece datar do final do séc. I de nossa era entre 80 e 85. Pode-se perceber nela uma longa prática litúrgica e catequética. Quanto à estrutura e composição, o texto grego deste evangelho foi muito bem conservado. O Texto atual provém de pergaminhos, que datam do séc. IV.

     É sabido que Mateus recorre a Marcos e a uma fonte chamada Q (Quelle = fonte), por isso, a sua obra assume também caráter narrativo, mas desde o início já introduz modificações, sobretudo inserindo discursos. Ele insere na obra afirmações jurídicas e legalistas. A obra de Mateus pode ser dividida a partir dos cinco grandes discursos muito bem inseridos na trama, desenvolvendo o caráter cristológico e eclesiológico.

 

     Literariamente, o evangelho se organiza assim: capítulos 1-4 – narração; 5-7 – discurso inaugural: o sermão da montanha é o projeto da vida cristã; 8-9 – narração; 10 – discurso missionário: corresponde ao reino, enquanto anunciado; 11-12 – narração; 13 – discurso parabólico: centralidade. O evangelho de Mt deve ser apresentado a partir daqui; 14-17 – narração; 18 – discurso eclesial: crises que precederão a vinda do reino definitivo; 19-23 – narração; 24-25 – discurso escatológico: atitude dos que esperam o reino definitivo; 26-28 – narração.

 

     Comunidade de Mateus – com a destruição de Jerusalém e do templo, no ano 70, pelos romanos, o judaísmo viu-se obrigado a sofrer uma reforma. Organizou, então, um movimento religioso para restabelecer a coesão do povo ameaçado de fragmentar-se. Era preciso opor-se aos cristãos, considerados cada vez mais como uma seita dissidente. Essa situação levou a comunidade de Mateus a se distanciar do judaísmo e se posicionar diante do templo, sacerdócio, interpretação da lei e ocupação romana. Contudo, Mateus não queria romper com o judaísmo nem com o cristianismo e, por isso, uma questão que surge durante essa situação é: “vale a pena deixar Moisés por Jesus?” Com ela, Mateus ajuda sua comunidade a reconstruir a sua identidade cristã. A Igreja é o verdadeiro Israel, Jesus é o verdadeiro (não outro, mas o verdadeiro) Moisés. O evangelista apresenta o projeto de Jesus em continuidade com a tradição de Israel, pois não se pode suprimir uma tradição enraizada em Abraão, e também apresenta o projeto de Jesus em superação a Israel, por isso usa o verbo grego plerōo, que significa plenificar, completar.

 

     Em Mateus, a figura de Pedro é muito importante. Mateus se preocupa em ligar sua comunidade à Igreja mãe e, para estabelecer esta ligação, usa a figura de Pedro. Assim como Pedro é a vida do discípulo, é feita de altos e baixos: “eu morrerei por você” (Mt 26, 35), por outro lado, nega Jesus: “eu nem conheço tal homem” (Mt 26, 72). Mateus não quer criar uma seita, por isso evoca a figura de Pedro.

 

     Mateus usou a “oligopistia”, ou seja, pessoas de pequena fé, e são exatamente elas que são pegas para lideranças da igreja. Mateus tira qualquer poder judicial da mão das lideranças, pois quem vai separar peixes bons e ruins (ou o trigo do joio) é Jesus, pois aquele que julga nunca se coloca do lado ruim. Mateus cria uma comunidade com pessoas de autocrítica, porque dentro da própria comunidade existem falsos profetas. Quando fala de escribas e fariseus, está falando daqueles de dentro da sua comunidade. Aí Jesus fala de remendo de pano novo em roupa velha, é o cristão que não quer passar pela transformação.

     O evangelho de Mateus jamais deixou de alimentar a piedade e suscitar a reflexão. Dos três evangelhos sinóticos, foi o mais citado pelos primeiros escritores eclesiásticos, certamente por ser o que dedicou maior espaço aos ensinamentos de Jesus. É o evangelho palestino por excelência, conforme nos diz Orígenes: “era dirigido aos crentes vindos do judaísmo”.

 

Pe. Isauro S. Biazutti