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08/04/2019

ARTIGO -O Crucificado é o Ressuscitado


O evangelho de Lucas é marcado pela decisão de Jesus de ir a Jerusalém: com olhar fixo (9, 51) e passo decisivo (19, 28). A expressão “com olhar fixo”, no texto grego é um hebraísmo e, literalmente, significa endureceu a face.Jerusalém é o lugar, predestinado pela vontade do Pai, no qual Jesus realiza de modo definitivo a sua missão de revelar o amor de Deus e de redimir o gênero humano. Em Jerusalém Jesus realiza o Evangelho, que é a sua Pessoa.

 

    O primeiro anúncio da Ressurreição ao mundo feito em Jerusalém atravessou a história e chegou até nós. Na Semana Santa, em especial, nós cristãos, somos chamados a renovar o mesmo anúncio para experimentar a presença do Cristo Ressuscitado em nosso meio. Também nós somos viajantes iguais aos discípulos que deixaram Jerusalém, a cidade das suas esperanças, dos seus sonhos, para caminhar tristes, angustiados até Emaús. Os dois discípulos tinham colocado sua confiança em Jesus, admirando as palavras e as ações dele, mas, naquela tarde em que voltavam para Emaús, o coração deles estava tomado pela desilusão por causa da morte de Jesus.

 

     Quantas vezes também nós experimentamos a mesma situação de desilusão, de angústia na viagem da nossa vida. Quantas vezes Deus parece estar distante de nós e, por isso, nos sentimos sós, abandonados. O caminho dos discípulos de Emaús é o itinerário do cristão que faz a experiência da “noite escura” da vida. Mas, é exatamente nos momentos de solidão, de dor que Cristo Ressuscitado vem ao nosso encontro, aliás, antes até, pela sua Encarnação, ele já está ao nosso lado, já caminha conosco, ainda que nem sempre percebamos a sua presença confortadora.

 

     Prosseguindo, no final do evangelho, os discípulos tocaram com a mão uma verdade fundamental, inicialmente aceita com resistência, com dificuldade: o Mestre, que eles viram morrer crucificado, agora está vivo e aparece a eles de diversos modos e formas. Nas suas aparições, Jesus, antes de tudo se mostra, isto é, se deixa tocar, se apresenta como o Vivente, como o autor da vida, como afonte da vida e, sobretudo, comunica aos discípulos os frutos da Páscoa, que são concentrados na saudação “a paz esteja convosco” (shalom). A paz é o sinal da salvação já realizada, a paz é dom do Espírito Santo que Jesus envia à sua Igreja para criar uma nova humanidade reconciliada com Deus e consigo própria. Com a Ressurreição de Jesus o homem não está mais sozinho porque Deus se tornou seu companheiro de viagem. O homem não está mais prisioneiro do seu egoísmo, do medo de morrer. Com a Ressurreição Jesus infundiu em nós o seu Espírito Criador, com o qual Deus derrotou a morte e inseriu em nossa história terrena a semente da imortalidade. Com a Ressurreição Jesus reconstruiu o homem criado desde a sua origem à imagem e semelhança de Deus. Pelo batismo cada um é chamado a ser um homem novo, deixando-se plasmar pelo sopro criador do Espírito Santo, dom de Cristo Ressuscitado à Igreja.

 

    Então, quando, na viagem, no caminho da nossa vida formos tomados pela dúvida, pela decepção e solidão, quando o fardo pesar sobre os nossos ombros, recordemos que Deus é o Emanuel (Deus conosco), que está sempre ao nosso lado pra nos sustentar.

 

    Neste mês de abril celebramos a semana maior, chamada pela Igreja Semana Santa. Nela revivemos os principais momentos da paixão e ressurreição do Senhor. A partir do Domingo de Ramos, nós entramos no espírito do Mistério Pascal, que constitui o centro e o objeto principal da mensagem cristã. Que a Ressurreição do Senhor nos leve a compreender que Páscoa é a passagem a uma terra nova, a uma dimensão renovada da vida.

 

Padre Isauro Sant’Ana Biazutti