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03/11/2018

"Cantai ao Senhor um canto novo!" (Sl 97,1)


 

 

Neste mês de Novembro, mais precisamente no dia 22, festa litúrgica de Santa Cecília, comemora-se o dia do Músico. Para destacar esta data, permito-me utilizar das palavras de alguns Papas recentes e propôr uma reflexão a todos, músicos ou não, sobre a importância da música na liturgia católica. O Papa emérito Bento XVI, faz uma citação interessante sobre a Música na Liturgia: “Gandhi evidencia três espaços de vida dos cosmos e mostra como cada um destes três espaços vitais comunica também um modo próprio de ser. No mar vivem os peixes, que se calam. Os animais sobre a terra gritam, mas os pássaros, cujo espaço vital é o céu, cantam. Calar é próprio do mar; gritar, da terra; cantar, do céu. Contudo, o homem participa nos três: ele traz em si a profundidade do mar, o peso da terra e a elevação do céu; por isso são suas também as três propriedades: calar, gritar e cantar. Hoje (…) vemos que ao homem sem transcendência permanece apenas o gritar, porque quer ser só terra e procura fazer tornar-se terra inclusive o céu e a profundidade do mar. A verdadeira liturgia, a liturgia da comunhão dos santos, restitui-lhe a própria totalidade. Ensina-lhe de novo o calar e o cantar, abrindo-lhe a profundidade do mar e ensinando-lhe a voar, a essência do anjo; ao elevar seu coração, faz ressoar de novo nele aquele canto que se tinha quase adormecido. Aliás, podemos dizer até que a verdadeira liturgia se reconhece exatamente pelo fato que nos liberta do agir comum e nos restitui a profundidade e a elevação, o silêncio e o canto. A verdadeira liturgia reconhece-se pelo fato que é cósmica, não sob medida para um grupo. Ela canta com os anjos. Cala-se com a profundidade do universo em expectativa. E assim, redime a terra” (Cantate al Signore um canto nuovo, PP. 153-154).


Dois documentos fundamentais para a Música Litúrgica são o Motu Proprio Tra le sollecitudini, de 1903, escrito pelo Papa S. Pio X e o Quirógrafo, de 2003, escrito pelo Papa S. João Paulo II, recordando a importância do documento secular escrito por seu antecessor. “Este documento é quase um “código jurídico” da Música Sacra”, afirma o papa polonês, inclusive como uma forma de desmistificar aquilo que poderia entender-se de forma errônea no Concílio Vaticano II, de que os princípios do Motu Próprio haviam caído. A música na liturgia tem uma função, que deve ser bem entendida para que ajude os fiéis a rezarem melhor. Mais recentemente, durante o Congresso Internacional de Música Sacra, em Roma, no mês de março de 2017, o Papa Francisco recorda a premissa da Instrução Musicam Sacram, de 1967: “A ação litúrgica reveste-se de maior nobreza quando é celebrada com o canto: cada um dos ministros desempenha a função que lhe é própria e o povo participa. Desta maneira, a oração adquire uma forma mais jubilosa; o Mistério da sagrada Liturgia e a sua natureza hierárquica manifestam-se mais claramente; mediante a união das vozes alcança-se uma união mais profunda dos corações; através do esplendor das realidades sagradas, o espírito eleva-se mais facilmente até às realidades celestiais; finalmente, toda a celebração prefigura com maior clareza a sagrada Liturgia que se celebra na Jerusalém celeste.” (MS, n. 5). E ainda aponta que “sem dúvida, o encontro com a modernidade e a introdução das línguas faladas na Liturgia suscitou numerosos problemas: de linguagens, de formas e de géneros musicais. Às vezes chegou a predominar uma certa mediocridade, superficialidade e banalidade, em detrimento da beleza e da intensidade das celebrações litúrgicas. Por isso, os vários protagonistas deste setor, músicos e compositores, maestros e coristas das scholae cantorum e animadores da liturgia podem oferecer uma contribuição preciosa para a renovação, sobretudo qualitativa, da música sacra e do canto litúrgico.”


Estas palavras dos santos padres, desde o século passado, nos fazem refletir sobre a importância do ministério musical na Liturgia. Cada grupo tem sua identidade e preferência musical e, em todos os documentos, é unânime a opinião de que a música litúrgica deve ser sempre um meio que ajude os fiéis a rezarem melhor, cada qual em seu estilo. Em nossa paróquia, temos a riqueza de termos diversos talentos com características musicais diferentes. Isto é muitíssimo importante numa vida comunitária, onde cada um oferece a Deus, pela Liturgia, o que tem de melhor, ajudando o povo de Deus a rezar bem e a estar mais intimamente ligado ao mistério celebrado com seu canto e participação ativa e plena. O Salmo 8 nos diz que “o perfeito louvor vos é dado pelos lábios dos mais pequeninos, de crianças que a mãe amamenta”. Para a nossa Paróquia de Nossa Senhora da Piedade, este trecho é essencial e, permita-me utilizar deste trecho para recordar a todos nós que o nosso trabalho deve ser essencialmente humilde. É muito fácil nos deixarmos levar pelos elogios e cairmos na tentação de querermos aparecer mais pela demonstração, muitas vezes exagerada, de nossos dons que pelo serviço litúrgico que nos dispusemos a prestar. Cada qual é chamado a emprestar a sua voz, o seu dom de tocar um instrumento musical para sustentar o canto congregacional, e, se necessário, corrigir (daí a importância da formação musical e litúrgica constante) a assembleia orante, sempre de forma que possamos oferecer a Deus “o perfeito louvor.” Em nosso caso, sob a proteção de Nossa Senhora da Piedade, nossa amada Mãe, devemos sempre pedir a Ela a sua delicadeza, capacidade de escuta e silêncio (importantes para o clima de oração) e de querer, como Ela, levar todos a Jesus.


Retomando o primeiro texto, gostaria de salientar a importância da formação técnico-musical para os nossos músicos. A nossa capacidade de cantar e tocar bem, com arte, tem sido deixada em segundo plano e, por vezes, como nos lembra o Santo Padre no último texto, acabamos por “cair em uma certa mediocridade, superficialidade e banalidade”. E isto pode acontecer com os que são profissionais da música ou não! Mesmo aqueles que já são músicos experientes precisam passar por estas formações como que para ter uma “sintonia fina” com aquilo que se celebra. Para os iniciantes na música, quanto mais cedo procurar participar destas formações, melhor. Assim, cria-se gradativamente um senso não apenas de músico, mas de músico a serviço da Liturgia, que coloca-se em segundo plano, à disposição, humildemente, dos irmãos, conduzindo o seu canto até o Senhor. É uma nobre e sublime missão que o Senhor nos confia! Lembremos que Deus criou todas as coisas através do som de sua voz, como nos recorda o livro do Gênesis e “viu que tudo era muito bom” (Gn 1, 31). Deus deixou plasmada esta centelha no ser humano e dá a alguns a facilidade de fazer o mesmo: criar boas melodias, harmonias, poesias em sua honra e, juntamente com todos os irmãos na Liturgia, elevar nossas vozes a Ele, que merece o nosso louvor!


Wallace Moura, organista da Paróquia e Santuário de Nossa Senhora da Piedade.