Arte e Fé


 
 
 
     A arte é um caminho de acesso à beleza e de glorificação da criação de Deus. Por isso, ela ocupa um lugar indiscutível na ação cultual de todas as religiões. 
     No âmbito cristão a arte exerce a diaconia à Verdade e ao Amor, pois está a serviço da liturgia e expressa ada Igreja. Ao longo dos séculos as verdades da fé foram esculpidas pelas mãos dos artistas e assim o evangelho foi anunciado em todas as culturas.
     A visita virtual ao Santuário de Nossa Senhora da Piedade oferecerá a você a experiência de percorrer o Caminho da Beleza através da apreensão das formas e estilos variados presentes no espaço sagrado. Para uma justa interpretação dos elementos artísticos deste templo é preciso considerar que “a obra de arte inspirada pela fé, é um instrumental necessário para expressar aquela experiência inefável que se realiza no mais profundo do coração de cada ser humano crente: a vida de Deus em Cristo, pelo Espírito Santo, assumindo a criatura” .
 
1. A fachada barroca
 
    Este Santuário é o marco zero da cidade das rosas. Ao seu redor nasceu Barbacena. Sua arquitetura reflete o gosto lusitano tradicional em sua forma retangular. Foi idealizado pelo exímio arquiteto militar português José Fernandes Pinto Alpoim, responsável também pela construção do prédio do atual Museu da Inconfidência de Ouro Preto.
    A fachada é um exemplar da arquitetura barroca. Monumentalidade, fortaleza e sobriedade são suas características marcantes. A torre direita ostenta o relógio que foi doado por Dom Pedro II. Entre as duas torres vê-se o frontispício onde se observa a predominância da curva e contra curva tipicamente barroca. Esta estrutura é encimada por uma grande cruz em pedra sabão. Merece destaque a portada em pedra envolvendo a porta principal, acima da qual, pode-se admirar uma bela escultura da Pietá em pedra sabão. A Virgem aparece assentada, seu manto é esvoaçante, seu olhar está voltado para o alto, numa expressão clara de esperança. Ela sustenta nos braços o corpo inerte do seu Filho. É admirável a anatomia e o movimento do corpo de Jesus. Aos pés da Virgem encontram-se os instrumentos da paixão: três cravos, a coroa de espinhos, um martelo e um crânio que simboliza a realidade da morte que toca todo ser humano que entra neste mundo.
 
2. Imagem francesa de Nossa Senhora da Piedade
 
    Logo à direita de quem entra no Santuário encontra-se a imagem da Padroeira . Ela é de origem francesa, chegou aqui no dia 14 de setembro de 1963 e foi doada pela paróquia de São Francisco Xavier - RJ. No dia 15 de setembro ela é transportada processionalmente pelas ruas de nossa cidade e acompanhada por uma multidão de fiéis.
    Do lado oposto pode-se ver o Batistério situado à entrada do templo. Além disso, vê-se também a colunas e arcos em estilo neoclássico que sustentam o coro. Através deste Oratório, onde se encontra a imagem de Nossa Senhora, tem-se acesso ao coro e à torre do relógio.
 
3. Torre do Relógio
 
    Estamos no interior da torre direita que abriga a engrenagem do relógio parisiense doado por Dom Pedro II, em sua terceira visita a Barbacena em 1885. No espelho do relógio pode-se ler a seguinte inscrição: “Hora Sonans hic admonet urbem munera Petri” – “Quando aqui soa a hora, lembra a cidade o presente de Pedro”. Esta frase foi escrita pelo célebre poeta barbacenense Pe. Mestre José Joaquim Correia de Almeida. Além do relógio esta torre sustenta três sinos de bronze fundidos em 2015 para substituir os antigos que estavam danificados. 
    Os sinos servem para acompanhar o início da celebração (procissão de entrada); convocar e sintonizar o coração dos fiéis: o toque durante a celebração indica, aos que ficaram em casa o andamento da missa: o toque do Evangelho e da consagração. A hora em que se entoa o Gloria e o Sanctus; conclamar à oração pessoal ao meio dia, à tarde: Oração do Angelus; conferir expressão à alegria dos fiéis em procissões, recepções e soar durante os funerais.
    Os novos sinos receberam os seguintes nomes:
 
4. Batistério
 
    No lado oposto ao Oratório onde se encontra a imagem da Pietà, localiza-se o Batistério do Santuário. Sua localização à entrada do templo indica que entramos na Igreja de Cristo passando pelas águas do Batismo. Ao centro encontra-se a Pia batismal, útero materno da Igreja, Esposa de Cristo. Ali são gerados os seus filhos e filhas. Na parede do fundo vê-se o painel alusivo ao Batismo de Jesus, obra do artista Weber Lacerda, executada no início do século XX. Abaixo do painel encontra-se um oratório embutido na parede com moldura em pedra e portas de madeira em harmonia com a Pia Batismal. Ambos do século XVIII.
 
5. Nave e Capela Mor
 
    No espaço sagrado duas áreas são de extrema importância: a nave e a capela. Na primeira se reúne a comunidade ou assembleia de fiéis. Na capela mor, além dos fiéis, os ministros que atuam diretamente na liturgia.
    A edificação deste templo estendeu-se por um longo período que vai de 1743 a 1764, isto explica em parte a diversidade de estilo presente no seu interior luminoso. Seu interior abriga além do Altar-Mor, dois altares colaterais e quatro altares laterais, onde se pode contemplar a beleza de uma rica imaginária. A talha dos retábulos é do século XIX e reflete uma transição do estilo rococó para o neoclássico. Vale ressaltar ainda a existência de pinturas do início do século XX, tanto no forro e paredes da nave quanto nas paredes da capela mor.
    Os temas desenvolvidos nas paredes da Nave são os seguintes: no coro vê-se a pintura de Santa Cecília, mártir da Igreja antiga e patrona dos músicos. Acima do púlpito do lado direito de quem entra, está o painel da Anunciação e defronte a este, ou seja, no lado oposto, o painel da Sagrada Família. Sobre o arco cruzeiro – limite entre a nave e a capela mor – o artista desenvolveu um tema alusivo à eucaristia, sacramento da presença real de Jesus. Além de comungar o Corpo de Cristo também o adoramos na hóstia consagrada. Esta mensagem aparece claramente neste painel onde se vê a adoração dos anjos ao Augusto Sacramento da Eucaristia.
    No forro existem pinturas do mesmo artista, mas infelizmente elas foram encobertas na década de 1960. Do lado esquerdo de quem entra pode-se ver a pequena área restaurada. Através deste fragmento, ousamos dizer que no forro da nave foram pintados temas bíblicos interpretados numa perspectiva mariana, ou seja, alusivos à presença e atuação de Maria, Mãe de Jesus, na história da salvação. Somente uma restauração total permitirá uma leitura coerente destes painéis.
 
6. Altares Laterais da Nave
 
     A nave é o espaço maior do Santuário. Ela evoca a realidade da Igreja enquanto embarcação cujo timoneiro é Jesus Cristo. Povoada de altares com seus respectivos santos titulares, púlpitos, lustres de cristal bacará, telas e pinturas parietais , ela é o espaço adequado para acolhida dos fiéis. Aqui se encontra a Via Sacra (pintura de cavalete – 1899), cenas que retratam o drama da Paixão de Cristo. Durante a quaresma, às quartas e sextas feiras, os fiéis meditam a Paixão do Senhor contemplando estes painéis que constituem as quatorze estações da Via Crucis.
    São seis altares que ocupam este espaço: dois colaterais (ladeando o arco cruzeiro) dedicados ao Sagrado Coração de Jesus (lado esquerdo) e à Imaculada Conceição (lado direito). Do lado esquerdo encontram-se os altares dedicados a São Sebastião e Santa Bárbara. Do lado direito os altares de São José e Nossa Senhora do Carmo. Merecem destaque: o monumento fúnebre situado antes do altar de São José feito em mármore (jazigo do Barão de Pitangui) e as telas da Ressurreição e Adoração da Cruz.
 
7. Capela Mor
 
    Antigamente este espaço era reservado para o Clero e as Irmandades principais da antiga matriz. Hoje abriga todos fieis e ministros que atuam diretamente na liturgia.
    Na Capela Mor encontra o altar do sacrifício, sobre o qual se celebra a eucaristia. Pode-se ver neste espaço quatro telas belíssimas: uma representa a Senhora da Dores envolvida pelas espadas de dor e as outras três apresentam cenas da vida da paixão de Cristo: Jesus atado à coluna, sua agonia no Jardim das Oliveiras e sua ressurreição gloriosa. Estas telas são do séc. XIX de autoria do artista José Correia de Lima.
    Digno de nota neste espaço sagrado são os dois lampadários de prata e os quatro tocheiros em madeira sobre o presbitério.
 
8. Retábulo Mor
 
    O retábulo mor do Santuário da Piedade reflete nitidamente a transição do estilo rococó para o neoclássico (final do século XVIII e início do XIX). A talha se caracteriza pela leveza e simplicidade. Rocalhas discretas, leves e flores ornamentam o retábulo. Além da imagem setecentista da padroeira, podemos ver ainda as esculturas em madeira de Jesus Crucificado, Santo Antônio de Pádua e São Francisco Xavier, ambas do séc. XVIII. 
 
9. Imagem Barroca de Nossa Senhora da Piedade
 
    O retábulo mor, em estilo rococó e neoclássico, ostenta o relicário de Barbacena: a veneranda imagem de Nossa Senhora da Piedade, vinda de Portugal em 1748.
    Vale pena visitar o Santuário para contemplar a sua beleza: A Virgem Maria encontra-se assentada, segurando nos braços o corpo do seu Filho morto. Sua cabeça está levemente inclinada para a direita e encurvada para frente. Ela é Mãe de Misericórdia! Suas mãos sustentam e acariciam: com a mão direita acaricia a cabeça do Filho e com a mão esquerda segura o seu braço esquerdo. As cores de sua veste - túnica avermelhada e manto azul - simbolizam que ela é Mãe de Jesus, Verdadeiro Deus que se fez homem. Na rubra tonalidade da túnica resplandece a divindade do Filho e a maternidade divina de Maria, e, no azul do seu manto, expressa-se a humanidade de Jesus e a dimensão humana da maternidade de Nossa Senhora. O lado ferido de Jesus recorda que nascemos de sua morte redentora e assim formamos a Igreja, família de Deus presente em cada comunidade.
 
10. Capela do Ss. Sacramento da Eucaristia - Entrada
 
    Situa-se do lado esquerdo da Capela Mor. Neste espaço realiza-se a adoração ao Ss. Sacramento da Eucaristia, sacramento da presença real de Jesus Cristo.
    A decoração da capela remonta ao século XIX. Predomina a tonalidade rubra nas pinturas da parede criando uma atmosfera solene e festiva. Esta pintura reproduz a sensação de que as paredes estão revestidas por um tecido adamascado.
    No forro em madeira vê-se a pintura de uma grega envolvendo-o totalmente em suas extremidades e ao centro um emblema com motivos eucarísticos: um cálice com uma hóstia da qual saem raios fulgurantes e cachos de uva. O emblema está envolvido por uma guirlanda de flores multicoloridas.
 
 
11. Capela do Santíssimo Sacramento
 
    O Altar da reposição é em estilo neoclássico, certamente uma criação do século XIX. Pode-se observar que o Sacrário – lugar onde são devidamente guardadas as hóstias consagradas – encontra-se envolvido por uma estrutura meio circular de colunas frisadas com capitéis em folhas de acanto. Sobre as colunas repousa a metade de uma cúpula. Além disso, vê-se quatro esculturas angélicas que ornamentam o altar. As figuras menores, em madeira, são do século XVIII e as duas maiores em gesso do séc. XX. 
    Ao entrar nesta capela o visitante atencioso observará na parede uma placa alusiva ao inconfidente Pe. Manoel Rodrigues da Costa (1754 – 1844). Figuras iminentes da história de Minas estão sepultadas no interior do Santuário, entre as quais este sacerdote que além de ter sido um dos expoentes da Inconfidência Mineira, foi deputado à Assembléia Legislativa do Império, batalhando pela nossa independência política. Ele foi uma personalidade destacada da Revolução de 1842, em Minas Gerais
 
11. Capela de Nossa Senhora das Dores – Altar
 
    Esta Capela abriga em seu interior as imagens da Virgem das Dores e do Senhor Bom Jesus. Imagens processionais do século XIX veneradas de modo especial pelos fiéis durante a Semana Santa em nossa cidade.
    A Virgem Maria – imagem de roca – é representada de modo jovial, está em pé e seu rosto é levemente inclinado para a esquerda. 
    Próximo ao altar pode-se ver ainda o piso original desta capela todo feito em pedra. A pintura da parede remonta ao século XIX e os ornamentos do altar reproduzem o estilo do século XIX, mas são pinturas recentes.
 
12. Capela de Nossa Senhora das Dores
 
    Uma capela simples e despojada! Paredes brancas, exceto nas proximidades do altar onde se vê uma pintura imitando tecido ou papel de parede. Aqui estão sepultados dois sacerdotes. As lápides em mármore no assoalho indicam o local do sepultamento. Nesta capela encontram-se as imagens do Bom Ladrão (São Dimas) e do Mal ladrão (Gestas), ambas pintadas pelo artista Sebastião Barroso (séc. XX). Trata-se de madeira recortada preservando a forma da cruz e a estrutura anatômica do corpo dos personagens, sobre a qual foi feita a pintura.
 
 
13. Capela do Senhor Bom Jesus dos Passos – Entrada
 
    À entrada desta capela se encontra o jazigo no qual repousam os restos mortais da Serva de Deus, Isabel Cristina Mrad Campos, como que indicando-nos a urgência de nossa união com Cristo, sobretudo no mistério de sua morte de Cruz.
    A Capela do Senhor Bom Jesus dos Passos foi devidamente decorada no final do século XX, tendo como referência os sinais da pintura antiga, de estilo clássico do século anterior. Predomina a coloração suave nas paredes em tom lilás, molduras e medalhões quebram a monotonia da pintura de forma.
 
14. Capela do Senhor Bom Jesus dos Passos – Altar
 
    O altar desta capela, sobretudo sua pintura é obra recente. Entre as colunas frisadas do retábulo foram pintados motivos referentes à paixão de Cristo. A ‘imagem de roca’ do Senhor dos Passos é do século XIX e durante a Semana Maior é conduzida processionalmente durante a Comemoração do Encontro, realizada no Domingo de Ramos.
 
15. Hall de entrada lateral
 
    Este espaço exerce a função de acolhida dos fiéis. É a via de acesso à Nave, à Capela mor, à Sacristia lateral e também à Capela do Senhor Bom Jesus dos Passos. Ao lado direito de quem entra na Capela dos Passos encontra-se uma formosa pia de água benta feita em granitina, ali colocada no ano de 1935 . Próximo à porta da sacristia vemos as seguintes imagens feitas em gesso e provavelmente todas do séc. XX: Santa Zita (padroeira das domésticas); São Cristóvão (padroeiro dos motoristas) e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
 
16. Sacristia
 
    Na Sacristia lateral do Santuário encontra-se a galeria dos Párocos (das telas do século XIX às fotografias do século XX). A cronologia segue do ano de 1856 até 2011. O mobiliário, restaurado recentemente, é simples e belo: compõe-se de doze cadeiras de palhinha, um arcaz onde são preservados paramentos antigos, um relógio de coluna e uma cômoda, no centro da qual se encontra um crucifixo. Este conjunto, na sua quase totalidade é do séc. XIX.
 
Texto: Pe. Geovane Luís da Silva